quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

All about Teresa

Naquele dia acordei muito cedo e liguei à minha mãe para levar a Bárbara ao infantário. Ela tinha passado mal a noite e não tive coragem de a acordar para a deixar mais cedo e podermos estar na maternidade pelas 8h 30m. Íamos induzir o parto. Eu sentia um turbilhão de coisas. Queria muito não ter que induzir e que tudo corresse o mais normal e espontâneo possível. Mas sentia-me já muito cansada, com dores, pressões e o meu obstetra entendeu que não se esperaria mais. 
Foi uma longa quinta-feira, a dilatação avançou e parou, as contracções avançaram e pararam. Mas num par de horas, as últimas dessa quinta-feira, tudo aconteceu, na calma e no silêncio bom daquela ala da maternidade. É talvez aquilo que me causa mais doces memórias, a sucessão dos sons e dos acontecimentos. Da dormência da epidural surgiu a vontade de fazer força, e logo três parteiras me rodearam, e me disseram o que fazer com aquela serenidade delas. Puxei em silêncio, para que as pudesse ouvir muito bem, para ouvir tudo, sentir tudo. E foi assim, ainda em silêncio, aquele que antecede o som inigualável e glorioso do primeiro choro, que nasceu a Teresa.
"Foi um parto muito bonito", disseram-me. Eu também achei.
Por aqui vivem-se novos dias. 
Não difíceis mas desafiantes, curtos para o que precisava ou gostaria, intensos como seria de esperar, mas surpreendentemente tranquilos e doces. Nada de baby blues até agora. Alguma angústia com as birras intensas da Bárbara, com a sua nova desobediência, com a forma como nos desafia e com a minha não tão grande dose de paciência. 
Estamos encantados com a forma como recebeu a irmã mais nova. Com o sorriso mais terno, muitas festinhas e beijinhos. É protectora e cuidadora. Zela pela sua chupeta e gosta de ajudar na muda da fralda. Gosta de ver televisão com ela por perto. Mas tem ciúmes, já percebeu que a Teresinha veio para ficar e obviamente tem medo de perder o seu lugar. Mas todos os dias lhe dizemos que é especial e que o seu lugar está garantidíssimo. 
A Teresinha é um doce de bebé. Sou uma mãe muito animal, passo a vida a cheirá-la, a observá-la, a roçar a minha cara na dela, em adoração. E nesta altura não há muito mais a dizer, estamos apaixonados. Maravilhados. Perdidamente, para sempre, irremediavelmente perdidos de amor.






quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

*


Tenho saudades do ballet. Do cheiro da sala, do toque da barra. Do chão de linóleo onde os pés traçam os círculos perfeitos dos rond de jambe e lançam os battement en cloche. Das professoras que mostram passos irrepreensíveis, do pianista que toca ao nosso ritmo. Dos maillots pretos, bordeaux, verde seco, das sabrinas de lona, pele ou pontas. Das saias leves, algumas curtas de trespasse, ou compridas para os exames. Dos tubos de aquecimento, cortados nos calcanhares. Das vénias no final. Dos puxos no cabelo, do grande espelho. E do que sentia a dançar, de cada coreografia, exercício ou passo que ensaiei. 
E muitas saudades do que sentia quando entrava naquela sala. Felicidade, liberdade. Paz.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Teresinha report

Nunca vi CTG's mais planos do que o meu às 40 semanas. Há dilatação, mas mais nada. Há indução marcada para daqui a uns dias. Tinha aquela fantasia de que ontem é que ia ser. As expectativas lixam tudo, mas também rapidamente se vê o outro lado. Não era o dia, pronto. Eu continuo com aquele misto de uma nostalgia da gravidez e a ansiedade de conhecer a Teresa, conhecer-lhe o rosto, cheirá-la, ver com quem se parece. Se é cabeludinha como a irmã, se chora da mesma maneira. Por isso, só me resta esperar tranquilamente e saborear essa espera, saber que falta muito pouco, tão pouco para sermos mais.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

À espera da minha aquariana

Mudou a lua, mas as minhas filhas não querem nada com estas coisas. Eu encantada, desde que estejam bem. Mas nesta que julgo ser a minha última sexta-feira de grávida, tenho que fazer umas pequenas alterações num projecto e enviar ainda hoje, e lidar com uma forte e inconveniente dor de garganta. Tudo o que eu queria, iei.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Nas últimas semanas a frase que mais tenho ouvido é "que tenhas uma hora pequenina!", expressão que desconhecia totalmente até entrar no mundo da maternidade. 
No último fim-de-semana estive numa festa de anos em que a grande maioria das pessoas só voltarei a ver a) nas próximas semanas b) nos próximos meses, e por isso toda a gente me desejou a tal hora pequena, um parto santo, que corra tudo pelo melhor. Apercebi-me então de que tenho medo, estou ansiosa. De tudo, do parto, do pós- parto, do que poderei sentir física e psicologicamente. Lembro-me que senti isto da primeira vez, mas as aulas de preparação para o parto e as conversas com a enfermeira Júlia ajudaram-me a relaxar. Sinto que fui muito bem preparada. E acho que tudo ajudou, acho que correu bem. Continua a correr. Mas eu tenho sempre medo. As pessoas dizem-me muitas vezes que eu sou tão calma, não me esforço por passar essa imagem, mas a verdade é que a passo e não corresponde ao que realmente sinto, nem ao que realmente sou. E eu tenho medo. Tenho dúvidas, medos, muitos deles muito parvos, que guardo só para mim. E tenho a certeza que esta ansiedade que sinto é mais do que legítima, é mais do que normal. As pessoas lidam mal quando lhes dizemos que temos medo, porque acham (e nós também) que vamos ser engolidos por ele, e consequentemente ficar incapacitados, amputados.

Mas também não é mentira que me surpreendo com a forma como acabo por lidar com as coisas, que consigo encontrar muita força nas adversidades, certezas no meio das dúvidas, paz de espírito no meio do caos. Gosto deste meu lado e quero ter mais noção de que o possuo. E cada vez mais sei que ele não existiria se eu não sentisse medo. Quase que não o podemos dizer. Que disparate. Mas eu sinto-me mais forte de cada vez que tenho a coragem de o aceitar. Tenho medo porque daqui a dias vou estar numa sala de partos. Tenho medo do momento em que me aperceber que está na hora, em que terei que agarrar nas malas e ir para a maternidade. Tenho medo pela minha pequena Teresa, quero que nasça bem, mas tenho medo pela Bárbara que fica, do que poderá sentir, de os meus braços lhe falharem.

Depois penso e se correr bem? E depois penso em dias de sol. E em sermos quatro. Em sorrisos. Em primeiras vezes, all over again. E é assim que a calma vem, e a certeza dos dias tramados, e o optimismo dos dias tranquilos, e isto tudo é correr bem. Isto tudo é o normal dos dias, da vida e da realidade que estou prestes a viver. 


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Girls report

E depois é deitar a cabeça na almofada e a Bárbara acordar com dói-dói na língua e a passar a noite em claro. E queixar-se do ouvido quando lhe roçamos lá com a mão. Desconfiámos e fomos ao médico, em boa hora. Já com uma otite (sem febre...) bastante instalada acaba a semana no recato do lar, a antibiótico. 
A Teresa continua muito bem instaladinha, muito encaixadinha e descida. Para a semana mais uma ecografia para avaliar o LA e o crescimento da pequenina. Mas o CTG não podia ser mais flat, e o médico acha que a coisa só se vai dar às 40 semanas, tal como com a irmã. Fine by me, eu espero. 

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

o melhor do meu dia foi o meu dia

Nestas últimas semanas tenho estado mais por casa, à conta de ultimar preparativos e da mega constipação que se apoderou de mim. E já me custa conduzir. Bem, não tanto conduzir, é mais entrar e sair do carro, que tormento empurrar-me a mim e à barriga. 
Mas hoje, motivada pelo sol e pela urgência em resolver algumas coisas tirei o dia para assuntos pendentes. Saí de manhã pela fresca, com a minha lista para começar a tratar. Ele foi segurança social, ele foi lidar com burocracias, ir a uma reunião há muito adiada, compras para a despensa e para a bebé, foi tudo a despachar. No fim do dia ainda nos encontramos os três para espairecer. Cheguei a casa, ignorei o séquito de formigas que se apoderou dos meus kiwis, tratei do jantar no meio de uma cozinha mais ou menos em pantanas, que como diz a minha mãe, "em tempo de guerra não se limpam armas". Fiz bolonhesa (gosto de juntar vinho branco mas esqueci-me de comprar) e crepes com maçã caramelizada (também podia ter comprado um gelado de nata...) e deitámos a pequena no meio de muita resistência, e já tarde. Pus a máquina da louça a lavar, apanhei roupa que secou hoje (obrigada São Pedro), arrumei algumas coisas e já não tive forças para mais nada. Agora... cama que o meu corpinho maçado já merece descanso. E a minha cabeça também agradece. Por isso e sem hesitar, o melhor do meu dia é mesmo deitar-me com esta sensação de cansaço bom, de quem finalmente deixou de correr sempre no mesmo sítio.